Receber o diagnóstico de doença renal crônica costuma vir acompanhado de uma lista de dúvidas:
- Preciso parar de comer carne?
- Posso usar sal?
- Tenho que evitar feijão?
- Whey protein está proibido?
- Toda fruta aumenta o potássio?
- Vou precisar comer uma comida completamente sem sabor?
A resposta raramente está nos extremos. Uma alimentação adequada para os rins não deve ser uma coleção de proibições. Ela precisa considerar o estágio da doença, a albuminúria, o potássio, o estado nutricional, a idade e as demais condições clínicas.
Por que o excesso de sal pode prejudicar?
O sal contém sódio. O sódio ajuda a controlar o volume de líquido dentro dos vasos e dos tecidos, mas seu consumo excessivo pode favorecer:
- aumento da pressão arterial;
- retenção de líquido;
- edema;
- dificuldade para controlar a insuficiência cardíaca;
- aumento da albuminúria em alguns pacientes;
- menor resposta a determinados medicamentos nefroprotetores.
Imagine uma esponja que retém água. Quanto maior a quantidade de sódio disponível, maior pode ser a tendência do organismo de manter líquido, especialmente quando os rins já apresentam dificuldade para eliminá-lo.
O KDIGO 2024 sugere que pessoas com DRC consumam menos de 2 gramas de sódio por dia, equivalentes a menos de 5 gramas de sal. A recomendação é classificada como 2C, ou seja, uma sugestão apoiada por evidência de certeza limitada e que deve ser individualizada.
Dois gramas de sódio não são dois gramas de sal
Essa diferença gera muita confusão.
- 2 gramas de sódio correspondem aproximadamente a:
- 5 gramas de cloreto de sódio, o sal de cozinha.
Além disso, essa quantidade inclui todo o sódio consumido ao longo do dia, e não apenas o que é adicionado durante o preparo.
O saleiro costuma receber toda a culpa, mas o “sal invisível” pode estar em:
- presunto, salame e outros embutidos;
- macarrão instantâneo;
- caldos e temperos prontos;
- molhos industrializados;
- alimentos congelados;
- enlatados;
- salgadinhos;
- biscoitos;
- alguns pães;
- refeições de restaurantes.
Como reduzir o sal sem deixar a comida sem sabor?
Algumas estratégias incluem:
- usar alho, cebola, limão e ervas;
- reduzir gradualmente o sal do preparo;
- comparar a quantidade de sódio nos rótulos;
- diminuir alimentos ultraprocessados;
- evitar levar o saleiro à mesa;
- preparar molhos caseiros;
- testar páprica, cúrcuma, alecrim, manjericão e outras combinações.
O paladar se adapta gradualmente. No início, a comida pode parecer menos salgada; depois de algumas semanas, alimentos muito ricos em sódio frequentemente passam a parecer excessivos.
E a proteína?
A proteína é necessária para formar e preservar músculos, enzimas, anticorpos e outros tecidos.
Ao mesmo tempo, seu metabolismo gera substâncias que precisam ser processadas e eliminadas. Uma ingestão muito elevada pode aumentar a carga de trabalho dos néfrons remanescentes em determinados pacientes.
Podemos comparar os néfrons a uma equipe de funcionários. Quando parte da equipe é perdida, os funcionários restantes precisam assumir uma carga maior. Um excesso contínuo de trabalho pode contribuir para sobrecarga.
Isso não significa que a proteína deva ser retirada.
Qual é a quantidade recomendada?
O KDIGO 2024 sugere manter aproximadamente 0,8 grama de proteína por quilo de peso corporal por dia em adultos com DRC G3–G5. Também orienta evitar ingestão elevada, acima de 1,3 g/kg/dia, em pacientes com risco de progressão.
Um paciente de 70 kg, por exemplo, teria como referência inicial cerca de 56 gramas de proteína por dia. Isso não significa 56 gramas de carne: os alimentos não são compostos exclusivamente por proteína.
O cálculo também não deve ser realizado de maneira automática em pessoas com obesidade importante, edema ou peso muito abaixo do habitual. O peso utilizado e a meta precisam ser definidos individualmente.
Restringir demais também pode causar dano
Uma dieta exageradamente restritiva pode provocar:
- perda de massa muscular;
- fraqueza;
- piora da imunidade;
- quedas;
- fragilidade;
- dificuldade de recuperação após infecções e internações.
Por isso, o KDIGO recomenda considerar metas mais altas de proteína e calorias em idosos com fragilidade ou sarcopenia. Dietas muito baixas em proteína devem ser utilizadas apenas em pacientes selecionados e sob supervisão próxima.
Em outras palavras, preservar o rim às custas de perder músculo não representa uma boa estratégia.
Proteína vegetal é melhor?
O KDIGO favorece uma alimentação diversificada, com maior presença de alimentos vegetais e menor consumo de produtos ultraprocessados.
As proteínas vegetais podem apresentar vantagens relacionadas à carga ácida, ao conteúdo de fibras e à biodisponibilidade do fósforo. Entretanto, não existe necessidade de transformar todo paciente renal em vegetariano.
A escolha depende de:
- preferência alimentar;
- potássio;
- fósforo;
- diabetes;
- condições gastrointestinais;
- segurança alimentar;
- capacidade financeira;
- risco nutricional.
Toda pessoa com DRC precisa restringir potássio?
Não.
A restrição deve ser orientada principalmente quando existe hipercalemia persistente ou risco elevado. Antes de proibir frutas, verduras e feijão, é importante procurar outras causas:
- constipação;
- acidose metabólica;
- diabetes descontrolado;
- doses de medicamentos;
- suplementos;
- substitutos de sal;
- aditivos de potássio em produtos industrializados.
Um cardápio muito restritivo pode diminuir a variedade alimentar e piorar a nutrição sem necessariamente resolver o problema.
E whey protein e suplementos?
O risco depende da quantidade total de proteína, da indicação, da composição do produto e da condição renal.
Suplementos podem acrescentar:
- grande carga proteica;
- sódio;
- fósforo;
- potássio;
- creatina;
- ingredientes não claramente descritos.
Isso não significa que sejam proibidos para todas as pessoas com DRC. Significa que devem ser incluídos no cálculo alimentar e avaliados antes do uso.
Mensagem final
A alimentação na doença renal crônica deve buscar quatro objetivos:
- reduzir sobrecarga desnecessária;
- ajudar no controle da pressão e da albuminúria;
- preservar massa muscular e energia;
- manter uma dieta possível de ser seguida.
O melhor plano não é o mais radical. É aquele que protege os rins sem comprometer a nutrição e a qualidade de vida.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica e nutricional individualizada.
Referências
- KDIGO CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(4S):S117–S314.
- Navaneethan SD, et al. KDOQI US Commentary on the KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of CKD. American Journal of Kidney Diseases.



