Quando um exame mostra a creatinina elevada, é comum o paciente ouvir uma recomendação aparentemente simples:
“Você precisa beber mais água para limpar os rins.”
A hidratação realmente é importante. No entanto, os rins não funcionam como um cano que precisa ser lavado continuamente. Em algumas situações, beber mais água pode ser necessário. Em outras, forçar líquidos não protege a função renal e ainda pode causar problemas.
Qual é o papel da água no organismo?
A água participa do transporte de nutrientes, da regulação da temperatura, do equilíbrio da pressão arterial e da eliminação de substâncias pela urina.
Os rins ajustam continuamente a quantidade de água eliminada. Quando o organismo precisa conservar líquido, a urina tende a ficar mais concentrada. Quando existe água em excesso, os rins normalmente produzem uma urina mais diluída.
Podemos comparar esse processo a uma caixa-d’água com entrada, armazenamento e saída. Para que o sistema funcione bem, deve existir equilíbrio:
- pouca entrada pode provocar desidratação;
- entrada excessiva pode provocar transbordamento;
- uma saída reduzida pode causar acúmulo mesmo quando a entrada parece normal.
Na prática, esse “transbordamento” pode aparecer como inchaço, aumento da pressão, falta de ar ou redução do sódio no sangue.
Beber mais água reduz a creatinina?
Às vezes, a creatinina sobe durante uma desidratação. Nesse contexto, corrigir a falta de líquido pode melhorar a circulação renal e contribuir para a recuperação dos exames.
Isso, porém, não significa que toda creatinina elevada seja causada por falta de água.
A creatinina pode mudar em razão de:
- doença renal crônica;
- lesão renal aguda;
- medicamentos;
- obstrução urinária;
- infecção;
- alterações da massa muscular;
- consumo de creatina;
- mudanças na alimentação;
- variações do método laboratorial.
Por isso, tentar “tratar” uma creatinina elevada apenas aumentando a água pode atrasar a investigação da verdadeira causa.
O que mostrou o estudo CKD WIT?
O CKD WIT foi um ensaio clínico randomizado que avaliou 631 adultos com doença renal crônica em estágio 3. Metade recebeu orientações para aumentar a ingestão de água; o outro grupo foi orientado a manter seu consumo habitual.
Após 12 meses, o grupo que aumentou a ingestão apresentou maior volume urinário, mas não teve uma redução significativa na velocidade de perda da função renal. A variação da TFGe foi semelhante nos dois grupos.
Esse resultado não significa que beber água seja desnecessário. Ele mostra que forçar um aumento generalizado da ingestão não demonstrou retardar a doença renal crônica nessa população.
Também não permite concluir que todas as pessoas devam beber pouco. O estudo teve duração de um ano e avaliou uma população específica. A mensagem correta é que não existe uma quantidade universal capaz de proteger os rins de todos os pacientes.
Quantos litros de água uma pessoa deve beber?
Não existe uma resposta única.
A necessidade de líquidos depende de:
- peso e composição corporal;
- temperatura do ambiente;
- intensidade da atividade física;
- volume de urina;
- febre, vômitos ou diarreia;
- uso de diuréticos;
- presença de insuficiência cardíaca;
- tendência a sódio baixo;
- estágio da doença renal;
- presença de cálculos renais;
- orientação médica específica.
Uma pessoa jovem, ativa e exposta ao calor pode precisar de uma quantidade diferente daquela indicada para um idoso com insuficiência cardíaca e inchaço.
Quando beber água demais pode ser prejudicial?
O risco aumenta principalmente quando o organismo não consegue eliminar adequadamente o líquido ingerido.
Isso pode ocorrer em pacientes com:
- insuficiência cardíaca descompensada;
- redução importante da produção de urina;
- doença renal muito avançada;
- determinadas causas de hiponatremia;
- necessidade médica de restrição hídrica.
Nessas situações, o excesso pode contribuir para edema, falta de ar, aumento da pressão ou redução do sódio.
E nos cálculos renais?
A orientação pode ser diferente. Para muitos pacientes com litíase, aumentar o volume urinário é uma medida importante para reduzir a concentração das substâncias que formam os cálculos.
Entretanto, mesmo nesses casos, a recomendação deve considerar o tipo de cálculo, as doenças associadas e a capacidade de eliminar água.
Como saber se a hidratação está adequada?
Alguns dados podem ajudar:
- sensação de sede;
- volume urinário;
- presença de edema;
- pressão arterial;
- mudança rápida de peso;
- cor da urina;
- sódio no sangue;
- condição cardiovascular;
- medicamentos utilizados.
A cor da urina pode oferecer uma pista, mas não é suficiente para avaliar a função dos rins. Urina muito clara não significa necessariamente que o rim esteja saudável, assim como uma urina mais concentrada pode ocorrer normalmente após várias horas sem beber água.
Creatinina não deve ser analisada sozinha
Para avaliar a saúde renal, o nefrologista pode considerar:
- creatinina;
- taxa de filtração glomerular estimada;
- albuminúria;
- exame de urina;
- tendência dos resultados ao longo do tempo;
- pressão arterial;
- medicamentos;
- ultrassonografia e outros exames, quando indicados.
A creatinina é uma peça do quebra-cabeça, não o quebra-cabeça inteiro.
Mensagem final
Beber água é importante, mas mais água não significa automaticamente maior proteção renal.
A orientação deve buscar equilíbrio. Pouco líquido pode provocar desidratação, enquanto o excesso pode ser prejudicial em determinadas condições. A quantidade adequada precisa ser individualizada de acordo com a função renal, a produção de urina, os medicamentos e as demais doenças do paciente.
Uma alteração persistente da creatinina deve ser investigada, e não apenas “diluída” com mais água.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individualizada.
Referências
- Clark WF, Sontrop JM, Huang SH, et al. Effect of Coaching to Increase Water Intake on Kidney Function Decline in Adults With Chronic Kidney Disease: The CKD WIT Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;319(18):1870–1879. DOI: 10.1001/jama.2018.4930.
- KDIGO CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(4S):S117–S314.



