Anti-inflamatórios e contraste: quais são os riscos para quem tem doença renal?

Pacientes com doença renal frequentemente recebem duas orientações categóricas:

  • “Nunca use anti-inflamatório.”
  • “Você não pode fazer exame com contraste.”

Essas frases surgem de riscos reais, mas precisam ser interpretadas corretamente. Anti-inflamatório e contraste não são a mesma coisa, não provocam lesão pelos mesmos mecanismos e não exigem decisões idênticas.

O objetivo não é banalizar os riscos, mas evitar tanto a exposição desnecessária quanto a proibição automática de um exame importante.

Como os anti-inflamatórios afetam os rins?

Os anti-inflamatórios não esteroides, conhecidos como AINEs, incluem medicamentos utilizados para dor, inflamação e febre.

Nos rins, determinadas prostaglandinas ajudam a manter a dilatação da arteríola que leva sangue ao glomérulo. Os AINEs reduzem a produção dessas prostaglandinas.

Podemos imaginar o glomérulo como um filtro conectado a uma mangueira. Em condições normais, a mangueira mantém fluxo suficiente para o filtro trabalhar. O anti-inflamatório pode estreitar parcialmente essa entrada.

Em uma pessoa saudável, bem hidratada e com boa circulação, essa alteração pode ter pouca repercussão. Mas, se o fluxo já estiver reduzido, o efeito pode ser relevante.

Quem apresenta maior risco?

O risco aumenta em pessoas com:

  • doença renal crônica;
  • idade avançada;
  • insuficiência cardíaca;
  • cirrose;
  • desidratação;
  • vômitos ou diarreia;
  • pressão muito baixa;
  • infecção grave;
  • uso de diuréticos;
  • uso de iECA ou BRA;
  • uso de múltiplos medicamentos que afetam a hemodinâmica renal.

A associação de diurético, bloqueador do sistema renina-angiotensina e AINE é popularmente chamada de “tríplice golpe” renal: o diurético pode reduzir o volume circulante, o iECA ou BRA modifica a saída do glomérulo e o AINE reduz a entrada de sangue.

Quais problemas os AINEs podem provocar?

Além da lesão renal aguda, podem ocorrer:

  • aumento da pressão arterial;
  • retenção de sódio;
  • edema;
  • piora da insuficiência cardíaca;
  • aumento do potássio;
  • redução do efeito de medicamentos anti-hipertensivos;
  • nefrite intersticial;
  • mais raramente, alterações glomerulares.

Revisões clínicas destacam que a segurança não depende apenas do estágio da DRC. Dose, duração, volemia, comorbidades e medicamentos concomitantes modificam significativamente o risco.

Usar por três ou cinco dias é seguro?

Não existe um número de dias que garanta segurança para todos.

Uma pessoa com função renal estável e baixo risco pode tolerar um período curto em uma situação selecionada. Já um idoso com DRC, insuficiência cardíaca, diurético e desidratação pode desenvolver lesão renal mesmo após poucos dias.

Portanto, “uso curto” não deve ser interpretado como autorização para automedicação.

Quando o medicamento é considerado necessário, deve-se avaliar:

  • indicação real;
  • menor dose eficaz;
  • menor duração possível;
  • alternativas;
  • função renal;
  • potássio;
  • estado de hidratação;
  • pressão;
  • sinais de congestão.

E o contraste iodado?

O contraste iodado é utilizado em tomografias, angiografias e outros procedimentos para melhorar a visualização de estruturas e vasos.

Durante muitos anos, grande parte das pioras da creatinina ocorridas após exames foi automaticamente atribuída ao contraste. Hoje se reconhece que pacientes submetidos a esses procedimentos frequentemente também apresentam infecção, hipotensão, insuficiência cardíaca, trauma, sangramento ou outras causas de lesão renal.

Por isso, existe uma diferença importante:

  • lesão renal associada ao contraste: piora renal que aconteceu depois da exposição, sem provar causalidade;
  • lesão renal induzida pelo contraste: piora realmente causada pelo contraste.

O risco da administração intravenosa foi provavelmente superestimado em várias situações. Mesmo assim, continua sendo necessário maior cuidado em pacientes com lesão renal aguda ou TFGe muito reduzida. O Manual de Contraste do American College of Radiology mantém um capítulo específico para essa avaliação e foi atualizado em 2025.

Quem precisa de maior atenção antes do contraste?

A avaliação deve ser mais cuidadosa quando existe:

  • lesão renal aguda;
  • TFGe inferior a 30 mL/min/1,73 m²;
  • hipotensão;
  • desidratação;
  • insuficiência cardíaca;
  • exposição arterial;
  • grande volume de contraste;
  • uso concomitante de nefrotóxicos;
  • procedimentos repetidos em curto intervalo.

Isso não significa que o exame esteja automaticamente proibido.

A decisão é uma balança

Imagine uma balança:

De um lado, está o risco de piora da função renal.

Do outro, está o risco de não identificar:

  • uma embolia pulmonar;
  • uma dissecção de aorta;
  • um tumor;
  • uma obstrução;
  • uma infecção;
  • uma complicação vascular.

Quando o exame pode modificar uma conduta importante, não realizá-lo também pode causar dano.

A pergunta correta não é apenas:

“O contraste pode fazer mal?”

A pergunta completa é:

“O benefício esperado deste exame supera o risco, e como podemos reduzir esse risco?”

Quais medidas podem ser adotadas?

Conforme o caso, a equipe pode:

  • confirmar se o contraste realmente acrescentará informação;
  • verificar exames recentes de função renal;
  • avaliar a presença de lesão renal aguda;
  • corrigir desidratação quando existente;
  • evitar nefrotóxicos não essenciais;
  • usar agente de baixa ou iso-osmolalidade;
  • utilizar o menor volume que preserve a qualidade diagnóstica;
  • realizar hidratação profilática em pacientes selecionados;
  • monitorar a função renal após o procedimento quando indicado.

A hidratação também não deve ser aplicada mecanicamente. Um paciente congestionado pode piorar se receber volume excessivo.

Quem faz hemodiálise precisa dialisar imediatamente após o contraste?

Em pacientes que já realizam hemodiálise de manutenção, não se costuma indicar uma sessão adicional ou modificar automaticamente o esquema apenas para remover contraste intravenoso.

A decisão pode ser diferente quando existem outras razões clínicas para diálise, como hipercalemia, acidose, edema pulmonar ou sobrecarga volêmica. O ACR mantém referências específicas sobre uso de contraste em pessoas com doença renal.

Como o paciente pode reduzir riscos?

Alguns cuidados simples:

  • informar que possui doença renal;
  • apresentar exames recentes;
  • levar uma lista dos medicamentos;
  • não usar AINE por conta própria;
  • comunicar vômitos, diarreia, febre ou redução da urina;
  • não suspender medicamentos sem orientação;
  • perguntar se o exame realmente precisa de contraste;
  • discutir o risco com o médico solicitante e com a equipe de radiologia.

Mensagem final

Anti-inflamatórios podem causar lesão renal, sobretudo em pacientes vulneráveis. Já o contraste iodado não deve ser considerado uma proibição absoluta para toda pessoa com DRC.

A melhor conduta é individualizar:

  • qual é o risco;
  • qual é o benefício;
  • existem alternativas;
  • quais medidas preventivas são apropriadas.

Evitar um medicamento desnecessário protege os rins. Realizar um exame necessário com planejamento também pode proteger a saúde — e, em algumas situações, salvar vidas.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma avaliação médica individualizada.

Referências

  1. Baker M, Perazella MA. NSAIDs in CKD: Are They Safe? American Journal of Kidney Diseases. 2020;76(4):546–557. PMID: 32479922.
  2. American College of Radiology. ACR Manual on Contrast Media. Versão disponível em 2025.
  3. KDIGO CKD Work Group. KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(4S):S117–S314.

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Sobre mim

Graduado em Clínica Médica pelo Hospital Federal de Bonsucesso e em Nefrologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

Membro da equipe de Nefrologia e Transplante Renal do Hospital São Lucas Copacabana, além de ser Diretor Médico de clínica satélite de diálise.

Especialista em atendimento nefrológico ambulatorial desde 2019, onde busca realizar uma consulta humanizada aliada com o conhecimento científico e técnico. 

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