Hiperparatireoidismo primário e cálculo renal: quando investigar?

Hiperparatireoidismo primário com cálcio elevado, PTH aumentado e maior risco de cálculos renais

O hiperparatireoidismo primário é uma das causas clássicas de hipercalcemia e pode aumentar o risco de cálculos renais, hipercalciúria e nefrocalcinose.

Ele ocorre quando uma ou mais glândulas paratireoides passam a produzir PTH em excesso, mesmo quando o cálcio no sangue já está elevado.

Uma dúvida comum é: “Se meu cálcio está alto e tenho pedra nos rins, isso pode ser hiperparatireoidismo?” Sim. Essa combinação merece investigação, especialmente quando o PTH está elevado ou inadequadamente normal para o nível de cálcio.

O que é hiperparatireoidismo primário?

O hiperparatireoidismo primário é uma doença em que uma ou mais glândulas paratireoides produzem PTH de forma excessiva.

O PTH participa do controle do cálcio no organismo. Quando está elevado de forma inadequada, pode:

  • aumentar o cálcio no sangue;
  • aumentar a liberação de cálcio dos ossos;
  • alterar a reabsorção renal de cálcio e fósforo;
  • aumentar a produção ativa de vitamina D;
  • favorecer hipercalciúria e cálculos renais.

Como é feito o diagnóstico?

Segundo as diretrizes internacionais, o diagnóstico clássico de hiperparatireoidismo primário hipercalcêmico é feito quando existe:

  • cálcio sérico elevado;
  • associado a PTH elevado ou inadequadamente normal;
  • em pelo menos duas avaliações.

Isso significa que mesmo um PTH “dentro da faixa de referência” pode ser anormal se o cálcio estiver alto, porque nesse contexto o PTH deveria estar suprimido.

Quais exames devem ser solicitados?

A investigação geralmente inclui:

  • cálcio total corrigido pela albumina;
  • cálcio ionizado quando necessário;
  • PTH intacto;
  • fósforo;
  • creatinina e função renal;
  • 25-OH vitamina D;
  • urina de 24 horas para cálcio;
  • avaliação de risco metabólico para cálculo renal;
  • imagem renal para pesquisar nefrolitíase ou nefrocalcinose.

Por que o hiperparatireoidismo causa pedra nos rins?

O excesso de PTH pode aumentar a quantidade de cálcio filtrada e eliminada pela urina.

Quando existe hipercalciúria, aumenta a supersaturação urinária de sais de cálcio e, consequentemente, o risco de formação de cálculos.

Entretanto, nem todo paciente com hiperparatireoidismo e pedra apresenta hipercalciúria importante. Outros fatores também podem participar, como:

  • hipocitratúria;
  • hiperoxalúria;
  • hiperuricosúria;
  • baixo volume urinário;
  • excesso de sódio.

Por isso, em pacientes com cálculo renal, é útil avaliar o perfil metabólico completo e não apenas o cálcio urinário.

Quais tipos de cálculo são mais comuns?

Os cálculos costumam ser de cálcio, especialmente:

  • oxalato de cálcio;
  • fosfato de cálcio.

Em alguns pacientes, a composição é mista.

Veja também nossos conteúdos sobre cálculo de oxalato de cálcio e cálculo de fosfato de cálcio e brushita.

Qual valor de cálcio na urina preocupa?

As diretrizes do Fifth International Workshop consideram hipercalciúria relevante no hiperparatireoidismo primário quando a excreção urinária de cálcio é superior a aproximadamente:

  • 250 mg/dia em mulheres;
  • 300 mg/dia em homens.

Esses valores fazem parte dos critérios que podem indicar tratamento cirúrgico.

Veja também nosso conteúdo sobre hipercalciúria e cálcio alto na urina.

Todo paciente com hiperparatireoidismo forma pedra?

Não.

Muitos pacientes não apresentam sintomas e descobrem a doença em exames de rotina.

Entretanto, cálculos renais e nefrocalcinose são manifestações clássicas da doença e podem ocorrer mesmo em pacientes que se consideravam “assintomáticos”.

Preciso fazer imagem dos rins?

Sim, isso é recomendado na avaliação do hiperparatireoidismo primário.

As diretrizes sugerem investigar presença de:

  • nefrolitíase;
  • nefrocalcinose.

Os exames podem incluir:

  • ultrassonografia;
  • tomografia;
  • radiografia em situações selecionadas.

A escolha depende do contexto clínico e da necessidade de caracterizar melhor os cálculos.

Nefrocalcinose também pode ocorrer?

Sim.

O aumento crônico da carga de cálcio pode favorecer depósito de cálcio dentro do tecido renal.

Veja também nosso conteúdo sobre nefrocalcinose.

Hiperparatireoidismo pode prejudicar a função renal?

Pode.

O comprometimento renal pode ocorrer por diferentes mecanismos:

  • cálculos recorrentes;
  • nefrocalcinose;
  • obstruções urinárias;
  • hipercalcemia persistente;
  • lesão renal associada à doença de base.

Por isso, a função renal faz parte da avaliação obrigatória.

Quando a função renal vira indicação de cirurgia?

As diretrizes internacionais consideram TFG estimada ou clearance de creatinina abaixo de 60 mL/min como critério renal para indicar paratireoidectomia.

Em pacientes com rim único, mesmo valores acima de 60 mL/min podem exigir discussão individualizada.

Quando o cálculo renal vira indicação de cirurgia da paratireoide?

A presença de cálculo renal ou nefrocalcinose é uma indicação clássica de paratireoidectomia em pacientes com hiperparatireoidismo primário, desde que não existam contraindicações.

Ou seja, não é necessário esperar que o paciente apresente crises repetidas ou perda importante de função renal.

Quais são os principais critérios para cirurgia?

As diretrizes recomendam considerar paratireoidectomia quando houver pelo menos um dos seguintes:

  • cálcio sérico acima de 1 mg/dL do limite superior da normalidade;
  • cálculo renal;
  • nefrocalcinose;
  • TFG estimada ou clearance de creatinina abaixo de 60 mL/min;
  • hipercalciúria acima de 250 mg/dia em mulheres ou 300 mg/dia em homens;
  • osteoporose significativa;
  • fratura vertebral;
  • idade abaixo de 50 anos.

A presença de apenas um desses critérios já pode ser suficiente para recomendar cirurgia.

Qual é o tratamento definitivo?

O tratamento curativo do hiperparatireoidismo primário é a paratireoidectomia.

O procedimento deve ser realizado por cirurgião com experiência em cirurgia de paratireoide.

Quando a indicação é adequada e a glândula responsável é removida, o cálcio e o PTH tendem a normalizar.

A cirurgia reduz o risco de novos cálculos?

Em muitos pacientes, sim.

A correção do hiperparatireoidismo reduz a carga de cálcio e pode diminuir a recorrência de cálculos.

Entretanto, alguns pacientes mantêm outros fatores metabólicos de risco, como hipocitratúria ou alto consumo de sódio.

Por isso, quem já formou cálculos pode continuar precisando de acompanhamento metabólico mesmo após a cirurgia.

Ultrassom de paratireoide confirma o diagnóstico?

Não.

O diagnóstico de hiperparatireoidismo é bioquímico, baseado em cálcio e PTH.

Os exames de imagem servem para localizar a glândula alterada depois que a decisão cirúrgica já foi tomada.

Eles não devem ser usados para “confirmar” a doença.

Quais exames de imagem são usados antes da cirurgia?

Entre os exames utilizados estão:

  • ultrassonografia cervical de alta resolução;
  • cintilografia de paratireoide com sestamibi;
  • tomografia 4D em situações selecionadas.

A escolha depende da disponibilidade, anatomia e experiência do serviço.

Cintilografia de paratireoide é obrigatória?

Não em todos os casos.

Ela é um exame de localização pré-operatória e não substitui os exames bioquímicos.

Em alguns pacientes, ultrassom e cintilografia são complementares.

O que é hiperparatireoidismo normocalcêmico?

É uma forma em que o cálcio total e ionizado permanecem normais, mas o PTH está persistentemente elevado.

Antes de fazer esse diagnóstico, é necessário excluir causas de hiperparatireoidismo secundário, como:

  • deficiência de vitamina D;
  • doença renal crônica;
  • baixa ingestão ou absorção de cálcio;
  • alguns medicamentos;
  • outras condições metabólicas.

A relação entre hiperparatireoidismo normocalcêmico e cálculos renais ainda exige interpretação mais cuidadosa.

Qual a diferença entre hiperparatireoidismo primário e secundário?

No primário, a própria paratireoide produz PTH em excesso.

No secundário, o aumento do PTH é uma resposta a outra condição, como deficiência de vitamina D ou doença renal crônica.

No hiperparatireoidismo secundário da doença renal, o cálcio frequentemente está normal ou baixo, especialmente nas fases iniciais.

Como diferenciar hiperparatireoidismo de hipercalcemia hipocalciúrica familiar?

A hipercalcemia hipocalciúrica familiar (FHH) pode apresentar cálcio elevado e PTH não suprimido, simulando hiperparatireoidismo primário.

Nesses casos, pode ser útil avaliar a relação entre clearance de cálcio e creatinina.

Uma relação muito baixa, especialmente abaixo de aproximadamente 0,01, pode levantar suspeita de FHH, principalmente em pacientes jovens ou com história familiar de hipercalcemia.

Tiazídicos podem confundir a investigação?

Sim.

Tiazídicos reduzem a excreção urinária de cálcio e podem alterar a interpretação da calciúria.

Além disso, podem contribuir para hipercalcemia em algumas situações.

Por isso, todas as medicações devem ser revisadas durante a investigação.

Lítio pode causar hiperparatireoidismo?

Sim.

O uso crônico de lítio pode alterar a regulação do PTH e aumentar o risco de hiperparatireoidismo.

Isso deve ser considerado especialmente em pacientes em tratamento psiquiátrico prolongado.

Vitamina D deve ser suspensa?

Não automaticamente.

Pacientes com hiperparatireoidismo podem apresentar deficiência de vitamina D, e sua correção pode ser necessária.

A reposição deve ser feita de forma individualizada, com acompanhamento de cálcio sérico e urinário.

Preciso reduzir cálcio da dieta?

Na maioria das vezes, não.

Restrição excessiva de cálcio alimentar não é recomendada de rotina e pode estimular ainda mais a secreção de PTH.

Além disso, em pacientes formadores de cálculos, dieta muito pobre em cálcio pode aumentar a absorção intestinal de oxalato.

Urina de 24 horas é importante?

Sim, especialmente em quem tem cálculo renal ou hipercalciúria.

A urina de 24 horas pode avaliar:

  • cálcio urinário;
  • volume urinário;
  • citrato;
  • oxalato;
  • sódio;
  • ácido úrico;
  • outros fatores de risco para litíase.

Perguntas frequentes sobre hiperparatireoidismo e cálculo renal

Cálcio alto e PTH alto sempre significa hiperparatireoidismo primário?

É muito sugestivo, mas devem ser excluídas situações como uso de lítio, FHH e outras causas menos comuns.

PTH normal com cálcio alto exclui hiperparatireoidismo?

Não. Se o cálcio está alto, o PTH deveria estar suprimido. Um PTH inadequadamente normal pode ser compatível com hiperparatireoidismo primário.

Pedra nos rins é indicação de cirurgia?

Sim. Nephrolitíase documentada é um dos critérios renais clássicos para paratireoidectomia.

Hipercalciúria sem pedra também pode indicar cirurgia?

Sim. Valores acima de aproximadamente 250 mg/dia em mulheres ou 300 mg/dia em homens podem ser considerados critério renal para cirurgia.

Depois da cirurgia nunca mais vou formar pedra?

Não necessariamente. O risco costuma cair, mas outros fatores metabólicos podem continuar presentes.

Hiperparatireoidismo pode causar osteoporose e pedra ao mesmo tempo?

Sim. Ossos e rins são dois dos principais órgãos-alvo da doença.

Quando cálcio alto e cálculo renal aparecem juntos, vale investigar

A associação entre hipercalcemia, PTH inadequadamente elevado e cálculos renais é uma apresentação clássica do hiperparatireoidismo primário.

Identificar a doença é importante porque existe um tratamento potencialmente curativo e porque a correção pode proteger tanto os rins quanto os ossos.

Se você apresenta cálculos recorrentes, hipercalcemia ou hipercalciúria, uma avaliação nefrológica e endocrinológica pode ajudar a definir se existe hiperparatireoidismo e qual é a melhor estratégia de tratamento.

Para uma visão geral sobre litíase, veja também nossa página sobre cálculo renal: sintomas, tratamento e prevenção.

Dr. Filipe Krüger realiza acompanhamento nefrológico presencial no Rio de Janeiro e também por telemedicina.

Sobre o autor

Dr. Filipe Krüger
Médico Nefrologista – RQE 38573
CRM-RJ 52.107882-8

Conteúdo elaborado com finalidade educativa. As informações desta página não substituem avaliação médica individualizada.

Última revisão médica: 6 de outubro de 2026.

Referências

Bilezikian JP, Khan AA, Silverberg SJ, et al. Evaluation and Management of Primary Hyperparathyroidism: Summary Statement and Guidelines from the Fifth International Workshop. Journal of Bone and Mineral Research. 2022;37(11):2293–2314.

European Association of Urology. EAU Guidelines on Urolithiasis. Edição 2026.

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Sobre mim

Graduado em Clínica Médica pelo Hospital Federal de Bonsucesso e em Nefrologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

Membro da equipe de Nefrologia e Transplante Renal do Hospital São Lucas Copacabana, além de ser Diretor Médico de clínica satélite de diálise.

Especialista em atendimento nefrológico ambulatorial desde 2019, onde busca realizar uma consulta humanizada aliada com o conhecimento científico e técnico. 

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