A nefrocalcinose é o depósito de cristais de cálcio dentro do tecido renal, geralmente na medula dos rins.
Ela pode aparecer isoladamente ou junto com cálculos renais e, quando identificada em um exame de imagem, merece investigação da causa.
Uma dúvida comum é: “Nefrocalcinose é a mesma coisa que pedra nos rins?” Não. Embora as duas condições possam coexistir, nefrocalcinose significa deposição de cálcio no próprio tecido renal, enquanto cálculo renal é uma pedra formada dentro do sistema urinário.
O que é nefrocalcinose?
Nefrocalcinose é o acúmulo difuso de sais de cálcio no parênquima renal.
Ela ocorre principalmente quando existe alteração persistente no metabolismo de cálcio, fosfato, oxalato ou na capacidade dos rins de acidificar a urina.
A European Association of Urology (EAU) destaca como causas importantes:
- hiperparatireoidismo;
- hiperoxalúria primária ou entérica;
- acidose tubular renal;
- rim em esponja medular;
- distúrbios do metabolismo da vitamina D;
- sarcoidose;
- hipercalciúria idiopática;
- hipocitratúria;
- doenças genéticas como doença de Dent e síndrome de Bartter.
Nefrocalcinose é a mesma coisa que cálculo renal?
Não.
O cálculo renal se forma dentro do sistema coletor urinário.
Já a nefrocalcinose representa deposição de cristais dentro do tecido renal, especialmente na medula.
Entretanto, as duas condições frequentemente aparecem juntas porque compartilham fatores metabólicos semelhantes.
Para uma visão geral sobre litíase, veja também nossa página sobre cálculo renal: sintomas, tratamento e prevenção.
O que significa nefrocalcinose medular?
A forma medular é a apresentação mais frequente.
Nela, os depósitos de cálcio se concentram principalmente nas pirâmides renais e regiões próximas às papilas.
Essa forma é particularmente associada a:
- acidose tubular renal distal;
- rim em esponja medular;
- hiperparatireoidismo;
- hipercalciúria;
- algumas doenças hereditárias.
Existe nefrocalcinose cortical?
Sim, mas é menos comum.
A nefrocalcinose cortical envolve predominantemente o córtex renal e costuma estar associada a condições diferentes das formas medulares.
Quando o laudo radiológico descreve nefrocalcinose cortical, a investigação deve ser individualizada de acordo com o contexto clínico.
Acidose tubular renal distal causa nefrocalcinose?
Sim, é uma das causas clássicas.
Na acidose tubular renal distal, o rim tem dificuldade para acidificar adequadamente a urina.
Isso pode causar:
- urina persistentemente alcalina;
- hipocitratúria;
- hipercalciúria;
- hipocalemia;
- cálculos de fosfato de cálcio;
- nefrocalcinose.
Uma coorte brasileira publicada recentemente encontrou a acidose tubular renal distal entre as principais causas de nefrocalcinose tanto em crianças quanto em adultos.
Hiperparatireoidismo pode causar nefrocalcinose?
Sim.
O hiperparatireoidismo primário pode aumentar cálcio no sangue e na urina, favorecendo depósitos de cálcio nos rins.
Por isso, pacientes com nefrocalcinose e cálcio sérico elevado ou no limite superior podem precisar de investigação com:
- cálcio total e/ou ionizado;
- fósforo;
- PTH;
- função renal;
- vitamina D em situações selecionadas.
O que é rim em esponja medular?
O rim em esponja medular é uma alteração estrutural dos ductos coletores renais.
Ela pode estar associada a:
- nefrocalcinose;
- cálculos recorrentes;
- hipercalciúria;
- hipocitratúria;
- infecções urinárias.
Nem todo paciente com rim em esponja medular desenvolve complicações, mas aqueles com litíase recorrente geralmente precisam de investigação metabólica.
Hiperoxalúria também pode causar nefrocalcinose?
Sim.
Quando o oxalato urinário está muito elevado, cristais de oxalato de cálcio podem se depositar no tecido renal.
Isso pode ocorrer em:
- hiperoxalúria entérica;
- cirurgias bariátricas com má absorção;
- doenças intestinais;
- hiperoxalúria primária.
Em casos graves, a deposição de oxalato pode contribuir para perda de função renal.
Vitamina D pode causar nefrocalcinose?
Excesso de vitamina D pode aumentar a absorção intestinal de cálcio e causar hipercalcemia e hipercalciúria.
Em pacientes suscetíveis, isso pode favorecer nefrocalcinose.
Isso não significa que a suplementação adequada de vitamina D cause nefrocalcinose em todas as pessoas.
O risco depende da dose, níveis séricos, função renal e metabolismo do cálcio.
Sarcoidose pode causar nefrocalcinose?
Sim.
A sarcoidose pode aumentar a ativação da vitamina D e elevar a absorção intestinal de cálcio.
Como consequência, alguns pacientes desenvolvem hipercalcemia, hipercalciúria, cálculo renal ou nefrocalcinose.
Quais sintomas a nefrocalcinose causa?
Muitas vezes nenhum.
A nefrocalcinose frequentemente é descoberta por acaso em ultrassonografia ou tomografia.
Quando existem sintomas, eles geralmente estão relacionados à doença de base ou a cálculos associados, como:
- cólica renal;
- sangue na urina;
- infecções urinárias recorrentes;
- fraqueza por alterações de potássio;
- redução da função renal em casos mais avançados.
Como aparece no ultrassom?
No ultrassom, a nefrocalcinose medular pode aparecer como aumento da ecogenicidade das pirâmides renais.
A interpretação depende do padrão, intensidade e distribuição dos achados.
Pequenas calcificações podem ser difíceis de distinguir de pequenos cálculos renais apenas pela imagem.
Tomografia é melhor para diagnosticar nefrocalcinose?
A tomografia pode identificar depósitos de cálcio com grande sensibilidade e ajudar a diferenciar padrões de calcificação.
Entretanto, nem sempre é necessário realizar tomografia em todos os pacientes.
A escolha do exame depende da suspeita clínica, necessidade de avaliar cálculos associados e exposição à radiação.
Nefrocalcinose pode ser confundida com pequenas pedras?
Sim.
Essa distinção pode ser difícil em alguns exames de imagem.
Calcificações papilares podem parecer pequenos cálculos, e pacientes com nefrocalcinose também podem apresentar pedras verdadeiras.
Por isso, o diagnóstico deve ser interpretado em conjunto com história clínica e investigação metabólica.
Quais exames de sangue devem ser feitos?
A investigação depende da hipótese diagnóstica, mas costuma incluir:
- creatinina e função renal;
- cálcio total ou ionizado;
- fósforo;
- sódio e potássio;
- cloro;
- bicarbonato;
- ácido úrico;
- PTH quando indicado;
- vitamina D em situações selecionadas.
Urina de 24 horas é importante?
Sim, principalmente quando existe litíase associada.
A urina de 24 horas pode avaliar:
- volume urinário;
- cálcio;
- oxalato;
- citrato;
- sódio;
- ácido úrico;
- pH;
- creatinina urinária.
Esses dados ajudam a identificar a causa e direcionar tratamento.
Nefrocalcinose tem tratamento?
O tratamento é direcionado à causa.
Não existe um medicamento único capaz de “limpar” os depósitos de cálcio do rim.
O objetivo é impedir progressão e reduzir novos depósitos e cálculos.
Dependendo do caso, o tratamento pode incluir:
- hidratação adequada;
- redução do excesso de sódio;
- correção da acidose metabólica;
- citrato de potássio em situações selecionadas;
- tiazídicos para hipercalciúria;
- tratamento do hiperparatireoidismo;
- tratamento de hiperoxalúria;
- controle da doença de base.
A nefrocalcinose pode desaparecer?
Depende da causa e da intensidade.
Em muitos pacientes, os depósitos já estabelecidos não desaparecem completamente.
O principal objetivo do tratamento é evitar progressão, prevenir cálculos e proteger a função renal.
Nefrocalcinose pode causar doença renal crônica?
Pode, dependendo da causa.
Algumas doenças associadas à nefrocalcinose podem causar perda progressiva da função renal, especialmente quando há:
- oxalose;
- doença de Dent;
- tubulopatias hereditárias;
- nefrocalcinose extensa;
- infecções ou obstruções recorrentes;
- doença de base não tratada.
Por isso, acompanhar periodicamente a função renal é importante.
Quem tem nefrocalcinose precisa de nefrologista?
Uma avaliação nefrológica é especialmente importante quando:
- a causa não está clara;
- existem cálculos recorrentes;
- há alteração de cálcio, potássio ou bicarbonato;
- existe hipercalciúria ou hiperoxalúria;
- há suspeita de acidose tubular renal;
- a função renal está alterada;
- o paciente é jovem ou tem história familiar sugestiva de doença genética.
Perguntas frequentes sobre nefrocalcinose
Nefrocalcinose é grave?
A gravidade depende da causa. Algumas formas permanecem estáveis, enquanto outras podem estar associadas a doenças metabólicas ou genéticas que exigem tratamento e acompanhamento.
Nefrocalcinose significa que tenho muitas pedras?
Não necessariamente. É possível ter nefrocalcinose sem múltiplos cálculos, embora as duas condições possam coexistir.
Nefrocalcinose dá dor?
Geralmente não diretamente. A dor costuma estar relacionada a cálculos ou obstrução associados.
Preciso operar?
A nefrocalcinose em si geralmente não é tratada com cirurgia. Procedimentos são indicados quando existem cálculos que precisam ser removidos ou outras complicações urológicas.
Posso ter nefrocalcinose com cálcio no sangue normal?
Sim. Hipercalciúria, acidose tubular renal e outras condições podem causar nefrocalcinose mesmo com cálcio sérico normal.
É possível prevenir piora?
Em muitos casos, sim. Identificar e tratar a causa pode reduzir novos depósitos, recorrência de cálculos e risco de perda de função renal.
O mais importante é descobrir a causa
Nefrocalcinose é um achado que merece investigação porque pode ser a manifestação de diferentes doenças metabólicas ou tubulares.
O tratamento depende de identificar se existe hipercalciúria, hiperoxalúria, acidose tubular renal, hiperparatireoidismo, rim em esponja medular ou outra condição.
Se um exame mostrou nefrocalcinose, uma avaliação individualizada pode ajudar a definir quais exames são necessários e quais medidas podem proteger os rins no longo prazo.
Dr. Filipe Krüger realiza acompanhamento nefrológico presencial no Rio de Janeiro e também por telemedicina.
Sobre o autor
Dr. Filipe Krüger
Médico Nefrologista – RQE 38573
CRM-RJ 52.107882-8
Conteúdo elaborado com finalidade educativa. As informações desta página não substituem avaliação médica individualizada.
Última revisão médica: 6 de outubro de 2026.
Referências
European Association of Urology. EAU Guidelines on Urolithiasis — Nephrocalcinosis. Edição 2026.
Nephrocalcinosis: unveiling renal tubulopathies in the genomic era. Estudo brasileiro publicado em 2026.


