Proteinúria: o que significa proteína na urina e quando se preocupar?

Proteinúria e presença de proteína na urina

Encontrar proteína na urina em um exame costuma gerar preocupação. Em alguns casos, a alteração é transitória e desaparece espontaneamente; em outros, pode ser um dos primeiros sinais de doença renal, mesmo quando a creatinina ainda está normal.

A presença aumentada de proteínas na urina é chamada de proteinúria. Ela não representa uma doença específica, mas sim um marcador que precisa ser interpretado de acordo com a quantidade, o tipo de proteína perdida e o contexto clínico.

Uma dúvida frequente no consultório é: “Minha urina está espumando. Isso significa que estou perdendo proteína?” Nem sempre. A espuma pode ocorrer por diferentes motivos, mas quando é persistente ou acompanhada de alterações nos exames de urina, merece investigação.

O que é proteinúria?

As proteínas são moléculas importantes que normalmente permanecem principalmente no sangue. Os rins funcionam como filtros e impedem que grandes quantidades dessas proteínas sejam eliminadas pela urina.

Quando existe alteração nesses filtros ou em outras partes dos rins, uma quantidade maior de proteína pode aparecer na urina. Esse achado é chamado de proteinúria.

A principal proteína encontrada na urina em muitas doenças renais é a albumina. Por isso, atualmente a avaliação da albuminúria tem um papel central no diagnóstico e na estimativa de risco da doença renal crônica.

Proteinúria e albuminúria são a mesma coisa?

Para entender especificamente a albuminúria e como interpretar a RAC, veja também nosso conteúdo sobre albuminúria e relação albumina/creatinina urinária (RAC).

Não exatamente.

Proteinúria significa aumento da quantidade total de proteínas na urina. Já albuminúria significa aumento especificamente da albumina urinária.

Em muitas doenças renais, a albumina é a principal proteína perdida. Por isso, diretrizes como o KDIGO recomendam preferencialmente a relação albumina/creatinina urinária (RAC) para a avaliação inicial de pessoas com risco de doença renal.

Existem, porém, situações em que outras proteínas podem estar presentes na urina, e nesses casos a avaliação da proteinúria total ou exames específicos podem ser necessários.

Proteína na urina significa doença renal?

Nem sempre.

A proteinúria pode ocorrer de forma transitória em algumas situações, sem representar necessariamente uma doença renal crônica.

Entre as situações que podem provocar uma elevação temporária estão:

  • exercício físico intenso;
  • febre;
  • desidratação;
  • infecções;
  • estresse físico importante;
  • algumas alterações hemodinâmicas.

Quando a perda de proteína persiste em exames repetidos, especialmente por três meses ou mais, passa a ser importante investigar a presença de doença renal crônica ou outras doenças dos rins.

Urina espumosa significa proteinúria?

Não necessariamente.

A urina pode formar espuma simplesmente pela força do jato urinário, pela concentração da urina ou até pela presença de produtos de limpeza no vaso sanitário.

Entretanto, uma espuma persistente, abundante e recorrente pode estar associada à perda de proteínas na urina e merece investigação, especialmente quando existem outros fatores de risco para doença renal.

O diagnóstico de proteinúria não deve ser feito pela aparência da urina, mas por exames laboratoriais.

Como saber se estou perdendo proteína na urina?

A avaliação pode ser feita por diferentes exames.

Entre os mais utilizados estão:

  • exame simples de urina (EAS ou urina tipo 1);
  • relação albumina/creatinina urinária (RAC);
  • relação proteína/creatinina urinária (RPC ou PCR urinária);
  • proteinúria de 24 horas em situações selecionadas.

Segundo o KDIGO, para avaliação inicial da albuminúria em adultos, a RAC em amostra isolada de urina, preferencialmente da primeira urina da manhã, é o método de escolha.

O que significa RAC no exame de urina?

RAC significa relação albumina/creatinina urinária.

Esse exame compara a quantidade de albumina com a quantidade de creatinina presente na mesma amostra de urina, permitindo estimar a perda de albumina sem a necessidade de coletar toda a urina durante 24 horas.

As categorias utilizadas pelo KDIGO são:

CategoriaRACClassificação
A1< 30 mg/gNormal a discretamente aumentada
A230–300 mg/gModeradamente aumentada
A3> 300 mg/gAcentuadamente aumentada

A quantidade de albumina na urina é importante não apenas para diagnosticar doença renal, mas também para estimar o risco de progressão da doença e de complicações cardiovasculares.

Proteinúria pode existir com creatinina normal?

Sim.

Esse é um conceito muito importante.

Algumas doenças renais provocam aumento da perda de proteína antes de causar redução significativa da filtração dos rins. Nesses casos, a pessoa pode ter creatinina e taxa de filtração glomerular aparentemente preservadas e, ainda assim, apresentar doença renal.

Por isso, a avaliação da saúde dos rins não deve depender somente da creatinina.

Quais são as principais causas de proteinúria?

Existem diversas causas possíveis. Entre as mais importantes estão:

Diabetes

O diabetes pode causar alterações nos glomérulos e provocar aumento progressivo da albumina na urina. A albuminúria é um marcador importante de risco renal e cardiovascular em pessoas com diabetes.

Hipertensão arterial

A hipertensão arterial pode contribuir para lesão renal e também pode estar associada à perda aumentada de proteínas na urina.

Glomerulopatias

As glomerulopatias são doenças que afetam diretamente os filtros dos rins e podem causar desde pequenas quantidades de proteína até perdas muito elevadas, algumas vezes associadas a edema e síndrome nefrótica.

Doenças autoimunes

Doenças como lúpus eritematoso sistêmico e vasculites podem acometer os rins e causar proteinúria, hematúria e redução da função renal.

Outras doenças renais e sistêmicas

Algumas doenças hereditárias, infecções, doenças hematológicas e outras condições sistêmicas também podem provocar perda de proteínas pela urina.

O que é proteinúria de 24 horas?

A proteinúria de 24 horas mede a quantidade total de proteína eliminada durante um dia inteiro.

O paciente precisa armazenar corretamente toda a urina produzida ao longo de 24 horas. Quando a coleta é incompleta, o resultado pode ficar pouco confiável.

Atualmente, para muitas situações clínicas, uma amostra isolada de urina com RAC ou relação proteína/creatinina fornece informações suficientes e é mais prática.

A coleta de 24 horas ainda pode ser útil em situações selecionadas, principalmente quando existe necessidade de quantificar de forma mais detalhada uma perda importante de proteína.

Qual quantidade de proteína na urina é normal?

Pequenas quantidades de proteína podem ser eliminadas normalmente pela urina.

Em termos de proteína total, valores abaixo de aproximadamente 150 mg em 24 horas costumam ser considerados dentro da faixa habitual em adultos, embora a interpretação dependa do método utilizado.

Para albumina, utilizamos preferencialmente a RAC:

  • A1: abaixo de 30 mg/g;
  • A2: entre 30 e 300 mg/g;
  • A3: acima de 300 mg/g.

O valor deve sempre ser interpretado em conjunto com a função renal, pressão arterial, diabetes e outras características clínicas.

O que é proteinúria nefrótica?

Quando a perda de proteína é muito elevada, tradicionalmente em torno de 3,5 g ou mais por dia em adultos, pode existir proteinúria em faixa nefrótica.

Quando essa perda importante vem acompanhada de alterações como redução da albumina no sangue e edema, pode haver uma síndrome nefrótica.

Esse quadro exige investigação da causa, frequentemente envolvendo avaliação especializada e, em determinadas situações, biópsia renal.

Proteinúria causa inchaço?

Pode causar.

Quando a perda de proteína é muito elevada, a concentração de albumina no sangue pode diminuir. Isso altera o equilíbrio de líquidos entre os vasos sanguíneos e os tecidos e pode contribuir para o aparecimento de edema.

O inchaço pode surgir nas pernas, tornozelos e ao redor dos olhos, dependendo da causa e da intensidade da perda proteica.

Proteinúria tem tratamento?

Sim, mas o tratamento depende da causa.

O objetivo não é apenas reduzir o número do exame, mas tratar a doença responsável pela perda de proteína e diminuir o risco de progressão renal.

Algumas estratégias utilizadas em pacientes selecionados incluem:

  • controle adequado da pressão arterial;
  • controle do diabetes;
  • redução do consumo excessivo de sódio;
  • tratamento específico da doença renal de base;
  • bloqueadores do sistema renina-angiotensina em situações indicadas;
  • inibidores de SGLT2 para determinados pacientes;
  • outras terapias específicas de acordo com o diagnóstico.

A escolha depende da quantidade de proteinúria ou albuminúria, da função renal, do potássio, da pressão arterial e da doença responsável pela alteração.

É possível diminuir a proteína na urina?

Em muitos casos, sim.

A redução da albuminúria ou proteinúria pode ocorrer quando a doença de base é controlada adequadamente e são utilizadas estratégias de proteção renal apropriadas.

Entretanto, a resposta varia de acordo com a causa. Por isso, não existe um único medicamento indicado para todos os pacientes com proteína na urina.

Devo repetir o exame quando aparece proteína na urina?

Frequentemente, sim.

Uma alteração isolada pode ocorrer devido a fatores transitórios. Quando o resultado não é muito elevado e não existem sinais de gravidade, muitas vezes é necessário confirmar se a alteração persiste.

A repetição ideal depende do tipo de exame e do contexto clínico. Em adultos, uma amostra da primeira urina da manhã costuma ser útil para confirmar albuminúria.

Quando devo procurar um nefrologista por proteinúria?

Uma avaliação nefrológica pode ser especialmente importante quando:

  • a proteinúria ou albuminúria persiste em exames repetidos;
  • a quantidade de proteína é elevada;
  • há redução da TFGe ou aumento da creatinina;
  • existe sangue na urina associado;
  • há edema;
  • a pressão arterial está difícil de controlar;
  • existe suspeita de glomerulopatia ou doença sistêmica;
  • a causa da perda de proteína não está clara.

Quanto mais cedo a causa for identificada, maior é a oportunidade de utilizar estratégias específicas para proteger a função renal.

Quando proteína na urina merece avaliação mais rápida?

Proteinúria importante acompanhada de edema rapidamente progressivo, redução significativa da quantidade de urina, falta de ar, sangue visível na urina ou piora rápida da função renal merece avaliação médica mais rápida.

Durante a gestação, o aparecimento de proteinúria associado a hipertensão arterial também exige avaliação obstétrica imediata, devido à possibilidade de pré-eclâmpsia.

Perguntas frequentes sobre proteinúria

Proteína 1+ na urina é grave?

Não é possível determinar a gravidade apenas pelo resultado 1+ da fita urinária. O achado pode ser transitório e precisa ser confirmado e quantificado, geralmente com RAC ou relação proteína/creatinina, conforme o contexto.

Proteína 2+ ou 3+ na urina significa doença renal?

Quanto maior a positividade na fita, maior a chance de existir uma perda significativa de proteína, mas o exame precisa ser quantificado e interpretado junto com os demais dados clínicos.

Proteinúria pode desaparecer?

Sim. Proteinúria transitória pode desaparecer quando o fator responsável é resolvido. Em doenças renais crônicas, a perda também pode diminuir com o tratamento adequado da causa.

Proteinúria é sempre causada pelos rins?

A maior parte da proteinúria persistente clinicamente relevante está relacionada a alterações renais, mas existem mecanismos diferentes, incluindo aumento de produção de determinadas proteínas no organismo. Por isso, em alguns casos, são necessários exames específicos.

Urina espumosa sem proteinúria é possível?

Sim. A aparência da urina não é suficiente para diagnosticar perda de proteína. O diagnóstico depende dos exames laboratoriais.

Posso ter proteinúria e função renal normal?

Sim. Algumas doenças renais começam com perda de proteína enquanto a creatinina e a TFGe ainda estão preservadas. Por isso, proteinúria persistente não deve ser ignorada.

O mais importante é descobrir a causa

Encontrar proteína na urina não significa automaticamente insuficiência renal, mas uma alteração persistente merece investigação.

A quantidade e o tipo de proteína perdida, a TFGe, a creatinina, a pressão arterial, o diabetes, o exame de urina e a evolução ao longo do tempo ajudam a identificar o risco e a provável causa.

Se seus exames mostram proteinúria ou albuminúria persistente, uma avaliação individualizada pode ajudar a esclarecer a origem da alteração e quais estratégias de proteção renal são mais adequadas para o seu caso.

Dr. Filipe Krüger realiza acompanhamento nefrológico presencial no Rio de Janeiro e também por telemedicina.

Sobre o autor

Dr. Filipe Krüger
Médico Nefrologista – RQE 38573
CRM-RJ 52.107882-8

Conteúdo elaborado com finalidade educativa. As informações desta página não substituem consulta médica ou avaliação individualizada.

Última revisão médica: 6 de outubro de 2026.

Referências

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(Suppl 4S):S117–S314.

Levin A, Ahmed SB, Carrero JJ, et al. Executive summary of the KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105:684–701.

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Sobre mim

Graduado em Clínica Médica pelo Hospital Federal de Bonsucesso e em Nefrologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ).

Membro da equipe de Nefrologia e Transplante Renal do Hospital São Lucas Copacabana, além de ser Diretor Médico de clínica satélite de diálise.

Especialista em atendimento nefrológico ambulatorial desde 2019, onde busca realizar uma consulta humanizada aliada com o conhecimento científico e técnico. 

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