Encontrar albumina na urina pode ser um dos primeiros sinais de alteração nos rins, mesmo quando a creatinina e a taxa de filtração glomerular ainda estão normais.
O exame mais utilizado para quantificar essa perda é a relação albumina/creatinina urinária (RAC), também conhecida pela sigla ACR em inglês.
Uma dúvida frequente é: “Minha RAC veio 80 mg/g. Isso significa que meus rins estão falhando?” Não necessariamente. O resultado precisa ser interpretado junto com a função renal, pressão arterial, diabetes, exame de urina e, muitas vezes, confirmado em uma nova amostra.
O que é albuminúria?
A albumina é uma das principais proteínas presentes no sangue. Em condições normais, os rins impedem que grandes quantidades de albumina sejam eliminadas pela urina.
Quando existe alteração nos filtros renais, uma quantidade maior de albumina pode passar para a urina. Esse aumento é chamado de albuminúria.
A albuminúria é importante porque pode indicar lesão renal mesmo antes de ocorrer redução significativa da função dos rins.
O que significa RAC no exame de urina?
RAC significa relação albumina/creatinina urinária.
O exame mede a quantidade de albumina presente na urina e a relaciona à concentração de creatinina na mesma amostra. Isso ajuda a corrigir diferenças de concentração da urina e permite estimar a perda de albumina sem precisar coletar urina durante 24 horas.
Segundo o KDIGO 2024, a RAC é o método preferencial para avaliação inicial da albuminúria em adultos.
Qual é o valor normal da RAC?
A classificação atual da albuminúria utiliza três categorias:
| Categoria | RAC | Classificação |
|---|---|---|
| A1 | < 30 mg/g | Normal a discretamente aumentada |
| A2 | 30–300 mg/g | Moderadamente aumentada |
| A3 | > 300 mg/g | Acentuadamente aumentada |
Esses valores não devem ser interpretados isoladamente. A importância clínica depende também da taxa de filtração glomerular, da causa da alteração e dos fatores de risco do paciente.
RAC de 30 mg/g é alta?
Uma RAC igual ou superior a 30 mg/g entra na categoria A2 e representa albuminúria moderadamente aumentada.
Um resultado isolado, entretanto, pode ser influenciado por fatores transitórios. Por isso, quando não existe uma situação de urgência, geralmente é importante confirmar se a alteração persiste.
RAC de 80 ou 100 mg/g é grave?
Esses valores estão dentro da categoria A2, mas não é possível definir a gravidade apenas pelo número.
O risco depende da combinação entre albuminúria e função renal.
Uma pessoa com TFGe normal e RAC de 80 mg/g pode ter um risco diferente de outra com a mesma RAC e TFGe de 35 mL/min/1,73 m².
Por isso, o KDIGO utiliza conjuntamente as categorias de TFGe e albuminúria para estimar risco renal e cardiovascular.
RAC acima de 300 mg/g é preocupante?
Uma RAC acima de 300 mg/g é classificada como A3, albuminúria acentuadamente aumentada.
Esse achado merece investigação da causa e costuma estar associado a maior risco de progressão da doença renal e eventos cardiovasculares.
Dependendo do contexto, pode ser necessário avaliar também a quantidade total de proteínas na urina, o sedimento urinário e outras causas de doença glomerular.
Microalbuminúria é a mesma coisa que albuminúria?
O termo microalbuminúria foi muito utilizado no passado para descrever uma perda urinária de albumina entre aproximadamente 30 e 300 mg/g.
Atualmente, as diretrizes preferem o termo albuminúria moderadamente aumentada, categoria A2.
Isso porque “microalbuminúria” pode dar a impressão equivocada de que se trata de uma albumina pequena ou de uma alteração sem importância.
Albuminúria é a mesma coisa que proteinúria?
Não exatamente.
Albuminúria significa aumento específico da albumina na urina. Proteinúria significa aumento da quantidade total de proteínas urinárias.
Na maioria das doenças glomerulares, a albumina representa uma parcela importante das proteínas perdidas. Entretanto, existem situações em que outras proteínas também podem estar aumentadas.
Por isso, RAC e relação proteína/creatinina não são exames idênticos e podem fornecer informações diferentes.
Por que a RAC é tão importante na doença renal crônica?
A albuminúria é um marcador independente de risco.
Quanto maior a quantidade de albumina presente na urina, maior tende a ser o risco de progressão da doença renal crônica e de complicações cardiovasculares.
Por isso, duas pessoas com a mesma TFGe podem apresentar prognósticos bastante diferentes dependendo da categoria de albuminúria.
Posso ter albuminúria com creatinina normal?
Sim.
A albuminúria pode surgir antes de qualquer alteração perceptível da creatinina.
Isso é particularmente importante em pessoas com diabetes, hipertensão arterial e algumas doenças glomerulares.
Por isso, avaliar apenas a creatinina pode não ser suficiente para detectar doença renal em fases iniciais.
Quais são as principais causas de albuminúria?
Entre as causas mais frequentes estão:
Diabetes
O diabetes é uma das principais causas de doença renal crônica e pode provocar aumento progressivo da albuminúria.
A RAC é utilizada tanto para rastreamento quanto para acompanhamento do risco renal em pessoas com diabetes.
Hipertensão arterial
A hipertensão arterial pode contribuir para lesão renal e aumento da albumina na urina.
Por outro lado, algumas doenças renais também podem piorar o controle da pressão arterial.
Glomerulopatias
As glomerulopatias afetam diretamente os filtros renais e podem causar albuminúria ou proteinúria em quantidades muito variadas.
Doenças cardiovasculares e sistêmicas
Algumas doenças cardiovasculares, autoimunes e inflamatórias também podem estar associadas ao aumento da albuminúria.
Albuminúria pode ser temporária?
Sim.
Algumas condições podem aumentar temporariamente a eliminação de albumina pela urina, entre elas:
- exercício físico intenso;
- febre;
- infecção urinária;
- desidratação;
- hiperglicemia importante;
- hipertensão descompensada;
- doença aguda.
Por isso, um resultado alterado nem sempre confirma doença renal crônica.
Preciso repetir uma RAC alterada?
Frequentemente, sim.
Quando a albuminúria é encontrada pela primeira vez e não existe uma situação clínica evidente que explique o resultado, costuma ser necessário confirmar se a alteração persiste.
Para esse objetivo, uma amostra da primeira urina da manhã é geralmente preferida, pois sofre menos influência de variações ao longo do dia.
A interpretação sempre deve considerar o quadro clínico.
Qual urina devo coletar para fazer RAC?
O KDIGO recomenda preferencialmente uma amostra do jato médio da primeira urina da manhã.
Em muitos casos, uma amostra aleatória também pode ser utilizada, mas a primeira urina da manhã costuma ser mais adequada quando é necessário confirmar um resultado alterado.
Preciso fazer urina de 24 horas para medir albuminúria?
Na maioria das situações, não.
A RAC em uma amostra isolada geralmente fornece informação suficiente para avaliação inicial e acompanhamento.
A coleta de urina de 24 horas pode ser indicada em situações específicas, mas apresenta o inconveniente de erros frequentes de coleta.
RAC alta causa sintomas?
Na maioria das vezes, albuminúria leve ou moderada não causa sintomas.
É comum o diagnóstico ocorrer em exames de rotina, principalmente em pessoas com diabetes ou hipertensão.
Quando a perda de proteína é muito elevada, podem surgir urina persistentemente espumosa e edema, mas esses sintomas não são exclusivos de albuminúria.
Urina espumosa significa RAC alta?
Não necessariamente.
A urina pode formar espuma por vários motivos. A aparência não é suficiente para diagnosticar albuminúria.
Se a espuma for frequente ou persistente, especialmente em pessoas com fatores de risco renal, vale investigar com exames adequados.
Albuminúria tem tratamento?
Sim, mas o tratamento depende da causa e do perfil do paciente.
O objetivo é tratar a doença responsável e reduzir o risco de progressão renal.
Em situações específicas, podem ser utilizados:
- controle adequado da pressão arterial;
- controle do diabetes;
- redução do consumo excessivo de sal;
- inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor da angiotensina;
- inibidores de SGLT2;
- finerenona em pacientes selecionados com diabetes tipo 2 e doença renal crônica;
- tratamentos específicos para glomerulopatias e outras doenças renais.
A escolha depende da TFGe, potássio, pressão arterial, intensidade da albuminúria e diagnóstico de base.
É possível reduzir a RAC?
Em muitos pacientes, sim.
Quando a causa é tratada adequadamente, a albuminúria pode diminuir significativamente.
A redução da albuminúria costuma ser um sinal favorável, mas o objetivo não deve ser apenas “normalizar um número”. O tratamento precisa reduzir o risco renal e cardiovascular do paciente como um todo.
Quando devo procurar um nefrologista por RAC alta?
Uma avaliação nefrológica pode ser especialmente importante quando:
- a RAC permanece acima de 30 mg/g em exames repetidos;
- a RAC está acima de 300 mg/g;
- existe redução da TFGe;
- a creatinina está aumentando;
- há sangue na urina associado;
- existe proteinúria importante;
- a pressão arterial é difícil de controlar;
- a causa da albuminúria não está clara.
A necessidade de encaminhamento também depende da idade, doenças associadas e velocidade de evolução das alterações.
Perguntas frequentes sobre albuminúria e RAC
RAC 20 mg/g é normal?
Uma RAC abaixo de 30 mg/g está na categoria A1. Entretanto, o resultado deve ser interpretado dentro do contexto clínico, especialmente em pessoas de alto risco.
RAC 50 mg/g significa doença renal?
Uma RAC de 50 mg/g está na categoria A2. Um único resultado não confirma sozinho doença renal crônica. É importante avaliar persistência, TFGe e demais marcadores renais.
RAC 200 mg/g é muito alta?
Uma RAC de 200 mg/g permanece dentro da categoria A2, próxima ao limite superior. É uma alteração clinicamente relevante que merece investigação da causa e avaliação do risco renal.
RAC 500 mg/g é grave?
Uma RAC de 500 mg/g está na categoria A3. Esse nível de albuminúria merece avaliação médica, investigação da causa e definição de medidas de proteção renal.
Albuminúria pode desaparecer?
Sim. Alterações transitórias podem desaparecer, e albuminúria persistente também pode reduzir com tratamento adequado da doença de base.
Quem tem diabetes deve fazer RAC?
Sim. A avaliação de albuminúria faz parte do rastreamento e acompanhamento renal de pessoas com diabetes, juntamente com a avaliação da TFGe.
O mais importante é interpretar RAC e TFGe juntas
A albuminúria permite identificar lesão renal mesmo quando a função de filtração parece preservada.
Por isso, a avaliação moderna da saúde renal não depende apenas da creatinina.
A combinação entre RAC e TFGe ajuda a diagnosticar doença renal, classificar o risco e definir quais pacientes precisam de acompanhamento mais próximo ou tratamento específico.
Se seus exames mostram RAC persistentemente elevada, uma avaliação individualizada pode ajudar a identificar a causa e determinar quais medidas de proteção renal são mais apropriadas para o seu caso.
Dr. Filipe Krüger realiza acompanhamento nefrológico presencial no Rio de Janeiro e também por telemedicina.
Sobre o autor
Dr. Filipe Krüger
Médico Nefrologista – RQE 38573
CRM-RJ 52.107882-8
Conteúdo elaborado com finalidade educativa. As informações desta página não substituem consulta médica ou avaliação individualizada.
Última revisão médica: 6 de outubro de 2026.
Referências
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105(Suppl 4S):S117–S314.
Levin A, Ahmed SB, Carrero JJ, et al. Executive summary of the KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney International. 2024;105:684–701.


